
Um gajo entusiasma-se. Afinal, estamos na pré-época, esse momento em que a realidade se suspende para, no seu lugar, se projectar um futuro sempre radioso, um amanhã que canta em timbre triunfante.
Bem me lembro de delirar com a contratação do Valtinho "pé de canhão" - "atirou um colega ao chão com um remate!", informou eufórico o meu avô, agraciado pela figura tutelar do Travassos de cerâmica que lhe decorava a mercearia: aos meus olhos, tal declaração era prova inequívoca de que, tendo tamanha besta futebolística ao lado do matador Iordanov, se a memória não me engana, então acabado de contratar na Bulgária, seríamos campeões nessa época lá nos finais dos anos 1980. Como sabemos, tivemos que esperar um pouco mais para, ainda com Iordanov mas com outro matador, desatar a correr para o Marquês, para o café de Coimbra que finalmente pode subir o preço da bica, para a Avenida dos Aliados, para a marginal de Luanda, enfim, para todo o sítio onde havia sportinguistas (que sim, existem mesmo em todo o lado e por isso uma das muitas coisas que irritou no Soares Franco foi ouvi-lo dizer, numa das suas famosas manifestações anti-sportinguistas, que percebia que os adeptos não fossem a Braga a um domingo à noite: caro Franco, os sportinguistas já estão em Braga, no Funchal, em Freixo de Espada a Cinta e o raio que os parta pode parti-los a todos que eles estarão lá na mesma; se não vão ao estádio é por outras razões). Mas divago.
Falava então da pré-epoca e da suspensão da realidade. Foi com esse espírito, essa bem vinda alienação, que me sentei no sofá a ver o jogo com o histórico Nottingham Forest (Peter Shilton forever!) Havia o Matias Fernandez e um salivar abundante por ver o que o homem poderia fazer. Havia o Sporting a jogar novamente e isso entusiasma qualquer um de bom fundo e bom coração. Tanto que um gajo se esquece que a equipa é a mesma - ainda bem -, que o treinador é o mesmo - menos mal - e, percebemos agora, que a porra do losango mal oleado também não há meio de desaparecer.
Por isso, elogiando a classe do Carriço que será capitão daqui a alguns anos e a carburação do Moutinho (extremos positivos), e temendo que ao Matias fique reservado para 2009/2010 o mesmo que ao Romagnoli de 2008/2009; ou seja, ver as bolas passar bem acima do seu 1m70, incapaz de qualquer passe de mágica junto ao relvado (extremo negativo), daqui elogio o pragmatismo que, actualmente, o Sporting nos incute.
Uma hora e meia depois, foi-se a suspensão da realidade. Somos exactamente os mesmos e estamos na mesma. Segurinhos e exasperantes. Exagero meu ao segundo jogo da pré-temporada? Oh Deus Michael!, como espero que sim, como sonho que o aborrecimento castrador dos últimos dois anos seja varrido com a agilidade e ligeireza de um moonwalk de levantar o estádio. O que mais receio, contudo, é que não haja um inesperado petardo do Valtinho a partir aquela merda toda (assim só para quebrar a monotonia, percebem?)