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domingo, 12 de outubro de 2008

Sublinhados ou eu bem vos avisei ou ainda ou ainda esta merda para mim não é um negócio

Da entrevista de Soares Franco ao DN retenho algumas notas fundamentais devidamente justificadas pelos negritos abaixo assinalados: a campanha de novos sócios é um fiasco, as assistências estão a baixar, e a culpa é da crise económica. Isto apesar de no caso do Porto e do Benfica elas estarem a aumentar. De qualquer forma, salientar que a SAd não tem explicação para o fenómeno. Os resultados da SAD estão dependentes dos resultados desportivos. A ideia de militantismo de Soares Franco é Carnaval. Ele não quer sócios ele quer e passo a citar "segmentar e direcionar" os consumidores. Esta é aliás a nota central que retenho do seu discurso: o desprezo total pelo Clube e pelos Sócios. Finalmente, eu bem vos avisei. O Sporting vai perder a maioria da SAD, mas só depois de o Estádio ser passado para a dita. Resumidamente: custos para o clube, património e rendimentos para a SAD.

Sim e porquê? Porque o Sporting não consegue passar uma mensagem de militantismo para os adeptos, e isso é que me preocupa e leva-me a fazer uma avaliação não positiva do meu desempenho. Considero um fracasso.

Estratégia igual, resultados diferentes?

Neste caso, melhores. O Benfica tem, a meu ver, mais militantismo que o Sporting.

E o FC Porto?

O Porto tem militantismo, mas nesse aspecto, tire-se o chapéu ao presidente Pinto da Costa, que conseguiu fazer do Porto uma bandeira do norte do país e da cidade do Porto. É um bocadinho parecido com o Barcelona com a Catalunha. Porque em todos os negócios, se não se souber segmentar e direccionar está-se provavelmente a errar a pontaria.

crise financeira tocou a campainha na cabeça da família sportinguista, que se calhar hoje perceberá melhor que há um conjunto de operações que vão voltar a uma assembleia-geral (AG) e que têm a ver com a reorganização societária, que são imprescindíveis para garantir a estabilidade do Sporting. O SCP deve ter as modalidades e um conjunto de receitas. E todo o resto do património afecto ao futebol profissional deve ser gerido pela SAD. Mesmo que isso implique que o SCP perca a maioria da SAD. Porque o SCP tem força dentro da SAD com as acções da classe A. O que é mais importante: ter uma equipa de futebol altamente competitiva ou ter mais 1% de acções da SAD?

Qual é o resto do património que passaria para a SAD, a academia, o estádio?

Exactamente, tudo isso é o que faz sentido.

E independentemente do Sporting ter que lutar para ter o melhor contrato que possa, não se pode esquecer que a entidade com quem tem os contratos televisivos teve sempre, desde a primeira hora, a apoiar o Sporting. E eu, enquanto for presidente do clube, nunca me esquecerei.

Não sei avaliar. Não conheço o dossier do Apito Dourado, não me sinto em condições de me pronunciar efectivamente sobre ele.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Do amor à camisola

O "caso" Moutinho tem feito disparar as referências ao amor à camisola. Não vou elaborar muito sobre o assunto, senão para deixar duas notas. Ele (o amor) provavelmente nunca existiu, ou a existir terá sido uma excepção, como bem prova o nascimento do objecto das nossas paixões e desejos: um bando de gajos trocou uma sociedade recreativa por um clube desportivo a troco de banhos quentes. Em segundo lugar, e para não terem simplesmente de acreditar em mim, deixo uma sugestão bibliográfica, que espero que funcione igualmente a modos que argumento de autoridade.
É óbvio que o facto de o amor à camisola nunca ter existido de forma nenhuma desculpa Moutinho, mas isso é conversa para mais 500 posts.

João Rodrigues e José Neves, “Do Amor à Camisola: Notas Críticas da Economia Política do Futebol”, em José Neves e Nuno Domingos (org.), A Época do Futebol. O Jogo Visto pelas Ciências Sociais, Assírio e Alvim, Lisboa, 2004, pp. 165-229.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Novidades

O Arsenal equipa com a mesma camisola desde 1933. A clássica camisola vermelha com mangas brancas. Este ano o equipamento vai mudar. Para além de umas curvas escanifobéticas no corpo as mangas vão passar a ter riscas. A lógica que guia a alteração das camisolas é a mesma que observamos no Sporting. Sem grandes motivos para isso o equipamento principal é alvo, todos os anos, de pequenas alterações. O objectivo é evidente: tornar as camisolas da época anterior obsoletas e "obrigar" os adeptos a despender mais 60 ou 70 euros todos os anos. O desenvolvimento da moda das camisolas nas bancadas merece ele mesmo uma posta só para si, mas não é com isso com que nos vamos entreter de momento. Apenas realçar que não se trata de nenhum problema com a ideia de marca ou de marketing ou sequer qualquer tendência conservadora. As camisolas mudam-se quando há necessidade para isso. Quando se muda de patrocinador. Quando existe uma solução mais esteticamente apelativa. Exemplo disso mesmo é a camisola clássica do Arsenal, criada por Herbert Chapman, com o claro intuito de ser diferente, e portanto mais apelativa, do que as clássicas camisolas de uma só cor usadas pelos rivais. Eu próprio exultei com a introdução da camisola Stromp como segundo equipamento. A coisa fazia lógica. Agora a mudança pura e simples de camisolas todos os anos, particularmente evidente no caso dos segundos equipamentos, para explorar o amor clubístico das pessoas é não só oportunista como vergonhoso.

domingo, 1 de junho de 2008

O tempo fará com que a mentalidade se vá invertendo

No futuro o Sporting vai deixar de ter a maioria de capital da SAD? Os sócios incomodam-se sempre com isto, em qualquer clube. Para si, esta questão é ou não é importante?

Primeiro: quando foi feita a lei das sociedades desportivas, não se permitia que os clubes tivessem mais de 40% das SAD. O espírito da lei era exactamente os clubes não controlarem o capital social de uma SAD. Foi introduzida depois, na lei, uma variável que permite, de uma forma indirecta, os clubes terem mais de 50% das SAD. Não conheço nenhuma empresa cotada em bolsa em que um accionista com 40% não domine qualquer assembleia-geral.

Até ao dia em que alguém fizer uma OPA e ficar com os outros 60 por cento….

O Sporting tem acções da classe A, e os accionistas que fizessem uma OPA, que são os que têm acções da classe B, numa assembleia-geral, mesmo com 60% do capital, só teriam direito a 10% dos votos. Os estatutos da SAD do Sporting blindam essa possibilidade [de alguém controlar que não o clube].

No futuro, seria preocupante para si, como sportinguista, que o clube viesse a poder seguir um caminho igual ao do Manchester United, ou do Chelsea, em que um magnata investe e depois tenta conseguir os melhores resultados para oferecer aos adeptos?

No Sporting, e na SAD, isso não é [actualmente] possível. A gestão será sempre do Sporting.

Mas, se fosse possível, isso era preocupante?

O novo paradigma da competitividade pode passar necessariamente por isso. Eu tenho uma cabeça bastante aberta relativamente a esses temas, desde que se mantenha o espírito de adepto ligado a um emblema.

Como em Inglaterra?

Culturalmente, em Inglaterra todos os clubes nasceram como sociedades. O que eles têm depois é uma associação de adeptos, que elegem e que negoceiam com o detentor do capital da sociedade os benefícios que vão ter. A gestão está entregue a quem investe. Os clubes em Portugal têm raízes culturais totalmente diferentes, e portanto, não estão preparados para essa revolução. O tempo fará com que a mentalidade se vá invertendo.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Quimeras mercantis

Um relatório da Deloite mostra que apenas oito clubes ingleses apresentam proveitos operacionais antes de impostos. O relatório e a sua interpretação estão disponíveis no site do Guardian. Os números podem também ajudar a perceber a insignificância económica do futebol português no contexto europeu. Insignificância que quatro ou cinco milhões por época não vão ajudar a resolver. O grosso das receitas dos clubes é angariado nos contratos televisivos (só o Wigan receberá qualquer coisa como quarenta milhões de euros por época) no sector comercial e na bilheteira. Com estes dois últimos itens os clubes portugueses também não conseguem competir pela simples diferença no custo de vida entre estes países e Portugal. De qualquer forma, uma outra notícia mostra que o preço de um bilhete de época no Liverpool, que anda à volta das seiscentas libras, levou a que a média de idades do estádio se situe nos quarenta e três anos e que a maior parte dos adeptos "tradicionais" do clube tenham sido simplesmente priced out do estádio. Por outro lado, e analisando a evolução do custo do mesmo bilhete de época, em comparação com 1985 (quarenta e cinco libras) e acompanhando a inflação, este deveria custar qualquer coisa como duzentas e vinte libras. Só a cereja no cimo do bolo; o mais histórico clube inglês está a braços, depois de quase triplicar o preço dos bilhetes e infinitiplicar as receitas resultantes das transmissões televisivas, com uma dívida de mais de quinhentos milhões de libras, que não consegue pagar e que está a estrangular o investimento no futebol. A dívida surge porque os novos donos não tinham um tostão para comprar o clube e pediram tudo emprestado aos bancos. Empréstimo que estão a pagar com os lucros do clube, que deixam em larga medida de ser reinvestidos no futebol.
Bem vindos ao futuro!